Maneiras baratas de matar personagens

O contabilista.
Estava sentado atrás de uma pequena mesa cheio de objetos sem utilidade e papéis, igualmente inúteis. Seu corpo – grande e gordo – tinha quase a mesma largura da mesa e enchia todo o campo de visão do homem que havia acabado de entrar na sala. O escritor.
– O senhor poderia parar de fumar?… É que sou alérgico. – fala o escritor.
– Ah sim, sim.  Tinha me esquecido. Tudo bem com você, certo? – dá uma última tragada e apaga o cigarro.
– Obrigado, tudo bem. – respondeu seco.
O escritor era basicamente o oposto do contabilista: seu corpo magro arrastava-se longamente perpendicular ao comprimento da mesa e do corpo do outro. E também não tinha nada das maneiras preocupadas em agradar que o homem à sua frente refletia.
– Bem, bem – começou o contabilista – nosso assunto hoje é rápido, sabe. Bem, esse último personagem que você matou, na sua história, sabe, é o segundo que morre de acidente de carro, sabe e, bem, não podemos com tantos gastos, e acidentes saem caros. Não poderia mudar isso? Um afogamento, quem sabe? Há maneiras mais baratas de se matar um personagem! – Ao terminar suava, pois a história até que estava rendendo bem, mas todos esses gastos com carros estavam minando o lucro e, como contabilista, sua função era aumentar o lucro da empresa. E todos esses acidentes ameaçavam diretamente seu emprego! E por isso suava.
– Oh não, não tem como – respondeu, surpreso, o escritor – O carro é uma metáfora e
– Ah sim, uma metáfora! – interrompeu o contabilista – Mas não pode ser um tiro, hein? Estamos com algumas pistolas no estoque, facilitaria bastante as coisas para nós, sabe.
– Mas a condição da personagem…
– Sei, sei, mas você tem que entender a minha condição também: tenho que manter as finanças equilibradas, e… Esses carros, esses acidentes, são rios de dinheiro… não pode usar uma cordinha, um travesseiro, que tal? Tantas coisas…! – E agora rios de suor rolavam pela pele do contabilista, que já estava vermelho tentando enxugá-los com um lenço. – Então, como… pode ser? – perguntou deixando de lado a possibilidade de uma resposta diferente da que queria.
– O senhor não precisa se preocupar. Será barato. Talvez não gastem dinheiro algum. Só isso então?
– Sim, claro. – E riu temeroso, continuando a suar. Pelo seu julgamento anterior, o escritor não era o tipo mais flexível e, agora, com meia dúzia de palavras havia se convencido. Achou estranho, mas preferiu não prolongar a conversa e irritá-lo mais, já que todos os meses uma conversa parecida repetia-se entre os dois. – Obrigado pela compreensão. Não sabe como me tranqüiliza.

No fim do dia chegava às mãos do contabilista a história com a devida modificação: a personagem jogou-se do alto de um grande prédio, de uma grande empresa. E a metáfora? Foda-se a metáfora…

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