Dezembro de 2008

Saiu cedo de casa. Fez suas pernas andarem um passo rápido ao qual não estavam acostumadas. Não correu. Não queria chamar sobre si nenhum olhar, nem o mais distraído. Passou por muitas ruas, sem parar em lugar nenhum, e nem sequer sabia o nome delas. Alguma memória desconhecida guiava seus passos naturalmente, revelando um caminho que nenhuma lembrança sua jamais ressuscitou.
Desde que se levantou, não parecia ter muita coisa na cabeça. Apenas um estranho objetivo, que mesmo após uma hora de caminhada ainda não tinha dado nenhuma razão para que fosse cumprido. E mesmo assim, nem por um instante, hesitou iniciar sua jornada. Talvez, esta costumeira tarefa poderia não apresentar tanta grandiosidade para ser chamada de jornada. Por tanto, no momento em que se levantou da cama, nada pareceu mais importante, ou merecedor de mais urgência, depois de tantos anos, que sua jornada.
“Pouco importa razões ou motivos”, avaliou, “estes me parecem mais com desculpas, de quem só evita fazer qualquer coisa… ‘Por quê?’ Que palavra terrível! Só serve a adiar ou destruir todo e qualquer sonho que temos”. Foi capaz de decretar isso somente quando já se encontrava próximo a um local conhecido. Ainda não era seu destino final, mas reconheceu que aquela praça onde tantas vezes brincou na infância… Era estranho evocar essas lembranças. Elas pareciam estar protegidas contra sua tentativa de invasão. Tentar recordar destes momentos, agora, era tarde demais, principalmente, para alguém que durante anos só fez evitá-las. Não os esqueceu, mas proibia-se e privava-se do direito de relembrar tempos tão distantes.
Após repousar os olhos na pequena e velha gangorra relembrou do seu objetivo e voltou a caminhar no mesmo passo rápido de antes.
Olhou para o seu relógio: já era quase onze horas! Talvez estivesse atrasado. Não sabia que horas deveria chegar e até o momento tinha evitado também olhar para o relógio que levava em seu bolso. Fora insensível e ignorante ao preservar tal relógio consigo. Deveria tê-lo devolvido na primeira carta que escreveu a sua mãe depois de tudo aquilo. Mas nunca pensou nisso até ontem, quando ela telefonou, pela primeira vez, para onde morava.
Recebeu o relógio de presente no último dia que o viu. “Por tudo, como ele estava radiante…!”, agora que já estava tão perto não havia como evitar tais lembranças. Todas suas memórias fluíam livremente para aquele dia quando experimentou sua maior alegria. E seu maior arrependimento. Uma frase infeliz, dita com ingenuidade, o separou por toda a vida do que mais valorizava no mundo.
Olhou para frente e viu a mãe, sozinha, com o mais triste brilho nos olhos. As lágrimas não desciam agora pelo seu rosto, mas ainda viam-se nele vestígios de muitas delas. Percorreu lentamente o espaço que separava sua mãe. A grama amassava com seus pés e logo se erguiam pela força do vento. Ao chegar ao lado dela, abraçou-a como não fazia a mais tempo do que jamais imaginou ter de deixar de fazê-lo. Ela retribuiu ao abraço e sussurrou calmamente ao seu ouvido:
- Ele já foi enterrado.
Encarou-a. Ela havia recomeçado a chorar e em seu próprio rosto uma lagrima escorregou. Ajoelhou-se no chão. Olhou estaticamente para a lápide. Na memória, voltava ao dia em que esteve ali com ele, seu pai, para visitar o seu avô. Agora eram os dois que estavam tão perto e eram inalcançáveis… Se houvesse qualquer maneira para estar com eles novamente, não hesitaria fazer o que fosse. “Não!…”. Por um instante congelou. Então mais lágrimas turvaram sua vista. A mãe pousou a mão em seu ombro. Finalmente havia entendido o que o pai quis lhe dizer com todos esses anos em que nunca mais esteve em sua vida.

M.C.N. 19/12/2001

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