the fool on the hill
the fool on the hill sees the sun going down and the eyes in his head see the world spinning roundLista de blogs
-
Por aqui
On Tea Playlist
Páginas
Arquivos
Meta
Arquivo do mês: setembro 2011
Sabiá
Sabiá pulou do puleiro, caiu no terreiro,
bateu asas pra voar, voou.
Atravessou vento de porta aberta,
corrente de calor de coberta,
águas de um março bravo.
Viu paisagens esquecidas pelo tempo,
bem vividas e aquecidas pelo sol.
Tantos assobios de flautas, ele ouviu.
Todas canções azuis, cantou.
Adormeceu em silêncios profundos,
abraçado em asas amigas.
Dezembro de 2008
Saiu cedo de casa. Fez suas pernas andarem um passo rápido ao qual não estavam acostumadas. Não correu. Não queria chamar sobre si nenhum olhar, nem o mais distraído. Passou por muitas ruas, sem parar em lugar nenhum, e nem sequer sabia o nome delas. Alguma memória desconhecida guiava seus passos naturalmente, revelando um caminho que nenhuma lembrança sua jamais ressuscitou.
Desde que se levantou, não parecia ter muita coisa na cabeça. Apenas um estranho objetivo, que mesmo após uma hora de caminhada ainda não tinha dado nenhuma razão para que fosse cumprido. E mesmo assim, nem por um instante, hesitou iniciar sua jornada. Talvez, esta costumeira tarefa poderia não apresentar tanta grandiosidade para ser chamada de jornada. Por tanto, no momento em que se levantou da cama, nada pareceu mais importante, ou merecedor de mais urgência, depois de tantos anos, que sua jornada.
“Pouco importa razões ou motivos”, avaliou, “estes me parecem mais com desculpas, de quem só evita fazer qualquer coisa… ‘Por quê?’ Que palavra terrível! Só serve a adiar ou destruir todo e qualquer sonho que temos”. Foi capaz de decretar isso somente quando já se encontrava próximo a um local conhecido. Ainda não era seu destino final, mas reconheceu que aquela praça onde tantas vezes brincou na infância… Era estranho evocar essas lembranças. Elas pareciam estar protegidas contra sua tentativa de invasão. Tentar recordar destes momentos, agora, era tarde demais, principalmente, para alguém que durante anos só fez evitá-las. Não os esqueceu, mas proibia-se e privava-se do direito de relembrar tempos tão distantes.
Após repousar os olhos na pequena e velha gangorra relembrou do seu objetivo e voltou a caminhar no mesmo passo rápido de antes.
Olhou para o seu relógio: já era quase onze horas! Talvez estivesse atrasado. Não sabia que horas deveria chegar e até o momento tinha evitado também olhar para o relógio que levava em seu bolso. Fora insensível e ignorante ao preservar tal relógio consigo. Deveria tê-lo devolvido na primeira carta que escreveu a sua mãe depois de tudo aquilo. Mas nunca pensou nisso até ontem, quando ela telefonou, pela primeira vez, para onde morava.
Recebeu o relógio de presente no último dia que o viu. “Por tudo, como ele estava radiante…!”, agora que já estava tão perto não havia como evitar tais lembranças. Todas suas memórias fluíam livremente para aquele dia quando experimentou sua maior alegria. E seu maior arrependimento. Uma frase infeliz, dita com ingenuidade, o separou por toda a vida do que mais valorizava no mundo.
Olhou para frente e viu a mãe, sozinha, com o mais triste brilho nos olhos. As lágrimas não desciam agora pelo seu rosto, mas ainda viam-se nele vestígios de muitas delas. Percorreu lentamente o espaço que separava sua mãe. A grama amassava com seus pés e logo se erguiam pela força do vento. Ao chegar ao lado dela, abraçou-a como não fazia a mais tempo do que jamais imaginou ter de deixar de fazê-lo. Ela retribuiu ao abraço e sussurrou calmamente ao seu ouvido:
- Ele já foi enterrado.
Encarou-a. Ela havia recomeçado a chorar e em seu próprio rosto uma lagrima escorregou. Ajoelhou-se no chão. Olhou estaticamente para a lápide. Na memória, voltava ao dia em que esteve ali com ele, seu pai, para visitar o seu avô. Agora eram os dois que estavam tão perto e eram inalcançáveis… Se houvesse qualquer maneira para estar com eles novamente, não hesitaria fazer o que fosse. “Não!…”. Por um instante congelou. Então mais lágrimas turvaram sua vista. A mãe pousou a mão em seu ombro. Finalmente havia entendido o que o pai quis lhe dizer com todos esses anos em que nunca mais esteve em sua vida.
M.C.N. 19/12/2001
Publicado em Sem-categoria
Maneiras baratas de matar personagens
O contabilista.
Estava sentado atrás de uma pequena mesa cheio de objetos sem utilidade e papéis, igualmente inúteis. Seu corpo – grande e gordo – tinha quase a mesma largura da mesa e enchia todo o campo de visão do homem que havia acabado de entrar na sala. O escritor.
– O senhor poderia parar de fumar?… É que sou alérgico. – fala o escritor.
– Ah sim, sim. Tinha me esquecido. Tudo bem com você, certo? – dá uma última tragada e apaga o cigarro.
– Obrigado, tudo bem. – respondeu seco.
O escritor era basicamente o oposto do contabilista: seu corpo magro arrastava-se longamente perpendicular ao comprimento da mesa e do corpo do outro. E também não tinha nada das maneiras preocupadas em agradar que o homem à sua frente refletia.
– Bem, bem – começou o contabilista – nosso assunto hoje é rápido, sabe. Bem, esse último personagem que você matou, na sua história, sabe, é o segundo que morre de acidente de carro, sabe e, bem, não podemos com tantos gastos, e acidentes saem caros. Não poderia mudar isso? Um afogamento, quem sabe? Há maneiras mais baratas de se matar um personagem! – Ao terminar suava, pois a história até que estava rendendo bem, mas todos esses gastos com carros estavam minando o lucro e, como contabilista, sua função era aumentar o lucro da empresa. E todos esses acidentes ameaçavam diretamente seu emprego! E por isso suava.
– Oh não, não tem como – respondeu, surpreso, o escritor – O carro é uma metáfora e
– Ah sim, uma metáfora! – interrompeu o contabilista – Mas não pode ser um tiro, hein? Estamos com algumas pistolas no estoque, facilitaria bastante as coisas para nós, sabe.
– Mas a condição da personagem…
– Sei, sei, mas você tem que entender a minha condição também: tenho que manter as finanças equilibradas, e… Esses carros, esses acidentes, são rios de dinheiro… não pode usar uma cordinha, um travesseiro, que tal? Tantas coisas…! – E agora rios de suor rolavam pela pele do contabilista, que já estava vermelho tentando enxugá-los com um lenço. – Então, como… pode ser? – perguntou deixando de lado a possibilidade de uma resposta diferente da que queria.
– O senhor não precisa se preocupar. Será barato. Talvez não gastem dinheiro algum. Só isso então?
– Sim, claro. – E riu temeroso, continuando a suar. Pelo seu julgamento anterior, o escritor não era o tipo mais flexível e, agora, com meia dúzia de palavras havia se convencido. Achou estranho, mas preferiu não prolongar a conversa e irritá-lo mais, já que todos os meses uma conversa parecida repetia-se entre os dois. – Obrigado pela compreensão. Não sabe como me tranqüiliza.
No fim do dia chegava às mãos do contabilista a história com a devida modificação: a personagem jogou-se do alto de um grande prédio, de uma grande empresa. E a metáfora? Foda-se a metáfora…
