Maíra
“Não lamente a gaivota dourada que fugiu dos teus olhos na luz da manhã.
Não deixe que as lágrimas turvem a tua visão, enquanto ela foge além do prisma multicolorido do infinito.
Ali são mais doces os caminhos.
Já não vive a tormenta nem a dor.
O mar é de um azul mais vivo, porém, cristalino.
Com um fundo pontilhado de imensas dunas de areias brancas.
Não mais verá a tormenta da chuva, nem a tormenta do frio,
que muitas vezes penetrou o nosso corpo e nos faz mais sozinhos.
As praias são ensolaradas do outro lado do espelho e se tu não puderes ver o meu reflexo, eu posso ver o teu mundo.
A saudade que queima, em cada peito, as lembranças. . . “
Antonio Carlos
30/11/83
Pergunta
Às calçadas do centro, que com o tempo se degastam.
Estampando em seus buracos as pegadas do pedestre apresado,
que pisoteia e esmaga seus dias em passos atarefados.
Que pressa de relógio é essa: contamos segundos e não histórias?
Nas calçadas do centro quero pintar poemas, desenhar uns contos
Para contar de andanças e reformar memórias gastas em outros tempos
Que o caminhante lerá com passos de leitor errante.
Onde vivem os monstros
Viajei por um grande deserto, e apenas sol e areia foi o que vi.
Viajei em densa floresta, e nada veio até mim.
Ontem descobri que meus monstros são diferentes.
Para encontrá-los não preciso fazer tão longas e incansáveis viagens.
Pelo contrário, é quando mais me fecho e mais covarde me sinto,
Hoje descobri que para afastá-los, ou deles me afastar,
Não preciso de um olhar forte, por que não quero dominá-los.
Não preciso de muito conhecimento, pois não quero confundi-los.
Não preciso de força física, pois não quero machucá-los.
O que realmente preciso é só de um pouco de tranquilidade e uma noite de sono.
Um pouco de sonho.
Sabiá
Dezembro de 2008
Saiu cedo de casa. Fez suas pernas andarem um passo rápido ao qual não estavam acostumadas. Não correu. Não queria chamar sobre si nenhum olhar, nem o mais distraído. Passou por muitas ruas, sem parar em lugar nenhum, e nem sequer sabia o nome delas. Alguma memória desconhecida guiava seus passos naturalmente, revelando um caminho que nenhuma lembrança sua jamais ressuscitou.
Desde que se levantou, não parecia ter muita coisa na cabeça. Apenas um estranho objetivo, que mesmo após uma hora de caminhada ainda não tinha dado nenhuma razão para que fosse cumprido. E mesmo assim, nem por um instante, hesitou iniciar sua jornada. Talvez, esta costumeira tarefa poderia não apresentar tanta grandiosidade para ser chamada de jornada. Por tanto, no momento em que se levantou da cama, nada pareceu mais importante, ou merecedor de mais urgência, depois de tantos anos, que sua jornada.
“Pouco importa razões ou motivos”, avaliou, “estes me parecem mais com desculpas, de quem só evita fazer qualquer coisa… ‘Por quê?’ Que palavra terrível! Só serve a adiar ou destruir todo e qualquer sonho que temos”. Foi capaz de decretar isso somente quando já se encontrava próximo a um local conhecido. Ainda não era seu destino final, mas reconheceu que aquela praça onde tantas vezes brincou na infância… Era estranho evocar essas lembranças. Elas pareciam estar protegidas contra sua tentativa de invasão. Tentar recordar destes momentos, agora, era tarde demais, principalmente, para alguém que durante anos só fez evitá-las. Não os esqueceu, mas proibia-se e privava-se do direito de relembrar tempos tão distantes.
Após repousar os olhos na pequena e velha gangorra relembrou do seu objetivo e voltou a caminhar no mesmo passo rápido de antes.
Olhou para o seu relógio: já era quase onze horas! Talvez estivesse atrasado. Não sabia que horas deveria chegar e até o momento tinha evitado também olhar para o relógio que levava em seu bolso. Fora insensível e ignorante ao preservar tal relógio consigo. Deveria tê-lo devolvido na primeira carta que escreveu a sua mãe depois de tudo aquilo. Mas nunca pensou nisso até ontem, quando ela telefonou, pela primeira vez, para onde morava.
Recebeu o relógio de presente no último dia que o viu. “Por tudo, como ele estava radiante…!”, agora que já estava tão perto não havia como evitar tais lembranças. Todas suas memórias fluíam livremente para aquele dia quando experimentou sua maior alegria. E seu maior arrependimento. Uma frase infeliz, dita com ingenuidade, o separou por toda a vida do que mais valorizava no mundo.
Olhou para frente e viu a mãe, sozinha, com o mais triste brilho nos olhos. As lágrimas não desciam agora pelo seu rosto, mas ainda viam-se nele vestígios de muitas delas. Percorreu lentamente o espaço que separava sua mãe. A grama amassava com seus pés e logo se erguiam pela força do vento. Ao chegar ao lado dela, abraçou-a como não fazia a mais tempo do que jamais imaginou ter de deixar de fazê-lo. Ela retribuiu ao abraço e sussurrou calmamente ao seu ouvido:
- Ele já foi enterrado.
Encarou-a. Ela havia recomeçado a chorar e em seu próprio rosto uma lagrima escorregou. Ajoelhou-se no chão. Olhou estaticamente para a lápide. Na memória, voltava ao dia em que esteve ali com ele, seu pai, para visitar o seu avô. Agora eram os dois que estavam tão perto e eram inalcançáveis… Se houvesse qualquer maneira para estar com eles novamente, não hesitaria fazer o que fosse. “Não!…”. Por um instante congelou. Então mais lágrimas turvaram sua vista. A mãe pousou a mão em seu ombro. Finalmente havia entendido o que o pai quis lhe dizer com todos esses anos em que nunca mais esteve em sua vida.
M.C.N. 19/12/2001
Maneiras baratas de matar personagens
O contabilista.
Estava sentado atrás de uma pequena mesa cheio de objetos sem utilidade e papéis, igualmente inúteis. Seu corpo – grande e gordo – tinha quase a mesma largura da mesa e enchia todo o campo de visão do homem que havia acabado de entrar na sala. O escritor.
– O senhor poderia parar de fumar?… É que sou alérgico. – fala o escritor.
– Ah sim, sim. Tinha me esquecido. Tudo bem com você, certo? – dá uma última tragada e apaga o cigarro.
– Obrigado, tudo bem. – respondeu seco.
O escritor era basicamente o oposto do contabilista: seu corpo magro arrastava-se longamente perpendicular ao comprimento da mesa e do corpo do outro. E também não tinha nada das maneiras preocupadas em agradar que o homem à sua frente refletia.
– Bem, bem – começou o contabilista – nosso assunto hoje é rápido, sabe. Bem, esse último personagem que você matou, na sua história, sabe, é o segundo que morre de acidente de carro, sabe e, bem, não podemos com tantos gastos, e acidentes saem caros. Não poderia mudar isso? Um afogamento, quem sabe? Há maneiras mais baratas de se matar um personagem! – Ao terminar suava, pois a história até que estava rendendo bem, mas todos esses gastos com carros estavam minando o lucro e, como contabilista, sua função era aumentar o lucro da empresa. E todos esses acidentes ameaçavam diretamente seu emprego! E por isso suava.
– Oh não, não tem como – respondeu, surpreso, o escritor – O carro é uma metáfora e
– Ah sim, uma metáfora! – interrompeu o contabilista – Mas não pode ser um tiro, hein? Estamos com algumas pistolas no estoque, facilitaria bastante as coisas para nós, sabe.
– Mas a condição da personagem…
– Sei, sei, mas você tem que entender a minha condição também: tenho que manter as finanças equilibradas, e… Esses carros, esses acidentes, são rios de dinheiro… não pode usar uma cordinha, um travesseiro, que tal? Tantas coisas…! – E agora rios de suor rolavam pela pele do contabilista, que já estava vermelho tentando enxugá-los com um lenço. – Então, como… pode ser? – perguntou deixando de lado a possibilidade de uma resposta diferente da que queria.
– O senhor não precisa se preocupar. Será barato. Talvez não gastem dinheiro algum. Só isso então?
– Sim, claro. – E riu temeroso, continuando a suar. Pelo seu julgamento anterior, o escritor não era o tipo mais flexível e, agora, com meia dúzia de palavras havia se convencido. Achou estranho, mas preferiu não prolongar a conversa e irritá-lo mais, já que todos os meses uma conversa parecida repetia-se entre os dois. – Obrigado pela compreensão. Não sabe como me tranqüiliza.
No fim do dia chegava às mãos do contabilista a história com a devida modificação: a personagem jogou-se do alto de um grande prédio, de uma grande empresa. E a metáfora? Foda-se a metáfora…
O Varal
Quantos dias serão necessários
Para que eu te veja assim.
Sem essa luz de imaginário
Nem que seja no jardim.Faço tudo todo dia
Aguardando a tarde com sua leve brisa
que até a sua janela me leva
Onde tenho meus 30 segundos de euforia.Tomarei o leite, sem atenção.
Recostarei na parede, controlando o pulmão.
Fecharei os olhos, e com tola alegria
ver-te-ei com as roupas que o varal vestia.
Luz
Ou crepúsculo
Minha vida tinha sido estúpida até agora.
Foi quando olhei para o sol
e vi mais cores do que podia imaginar.
Olhei ao meu lado
e vi mais que um simples vazio.
Olhei-me no espelho
-um hematoma envelhecido.
Em minha pele só havia o frio.
Em minha cabeça, um torto sorriso.
Em meus sonhos, o cheiro doce de um vampiro.
Two Of Us
Ou almoço de domingo
Suas memórias te levam a todo lugar
Levam-te a seguir qualquer desejo
Remetente ou destinatário
Do que ela própria te fez sonhar
Sua memória é longa
Não esquece sol, chuva ou caminho de casa
E em qualquer domingo você acreditará na nossa perseguição
E estaremos no caminho
Adeus, estou indo pra casa
Across The Universe
Ou nada irá mudar meu mundo
A chuva flui
A palavra cai
Papel ou universo
Nada irá mudar meu mundo
Raios e raios escrevem a carta
Que o trovão anuncia
Além e através do universo
Mas nada irá mudar meu mundo
Ilumina-me a solar luz do verso
E nada irá mudar meu mundo
